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Uma nova peça íntima

Quando era um ano atrás era inimaginável pensar em um novo item que fosse tão indispensável e cotidiano quanto uma calcinha. Algo que fossemos lembrar todos os dias, subitamente incorporar às nossas práticas mais banais e sentir falta caso esquecêssemos. E digo isso com certeza, porque coincidente e impressionantemente fiz esse exercício imaginativo mais ou menos nessa época. Não havia espaço para esse item imaginado. Em seguida ele veio. A máscara é a nova calcinha. Se saímos sem ela, nos sentimos meio nus, inadequados. O mesmo que aconteceu com os cintos de segurança e celulares. E mais ou menos o oposto do que espero estar acontecendo com os sutiãs.

Pois é, o que cabe no conceito de necessidade primária – aquilo de que sem dúvidas precisamos e incondicionalmente precisaremos -, contraditoriamente, é mesmo muito mutável.

E deve ter sido assim com as primeiras pessoas a usarem roupas íntimas também. E com as lanças, que, para as saídas de hoje em dia, são muitíssimo prescindíveis.

Jovens e pandemia – registro de uma memória imaginadamente coletiva

Uma amiga me disse que, em uma aula online, um professor dela alegou se compadecer de nós jovens neste momento. Ele teria dito algo como “Sinto pena por vocês. Nesses anos da minha vida tive conversas de bar que, se pudesse, colocaria no meu currículo”.

Muitos são os dramas da pandemia. Muitos mesmo. Queria compartilhar dessa vez pensamentos que estive tendo espaçadamente sobre a situação do jovem e da juventude vivendo essa experiência chamada pandemia.

A verdade é que tem sido difícil. Muitos de nós provavelmente viveremos 2 anos de nossa faculdade, um dos mais promissores da juventude, (praticamente) isolados. Com isso, boa parte de nós cairá com os dois pés no mundo plenamente adulto após esse período. Do que vimos – estágios remotos – não parece uma ideia animadora. E isso nos tem feito questionar. Será que era só isso? Será que já acabou?

Parece que, depois de tanto tempo contendo tudo, nos questionamos se é o caso de acharmos que a nossa parábola já começa a enfrentar a descida. Muitos de nós não devem nem pensar isso tão às claras. Talvez só sintam resquícios. Talvez só acatem essa sensação. Não sei. Mas acredito que ela paire sobre muitos de nós. E é de se compreender.

Afinal, realmente, faz tanto tempo que não temos uma conversa de bar. Não propriamente num bar. E, bom, isso por si faz bastante diferença. Quando temos uma conversa que seja ao vivo, é muito raro que não seja com aquele minúsculo círculo de pessoas autorizadas – ou por quem fizemos concessões duvidosas em relação às regras da quarentena. E se pararmos para pensar. Quanto tempo faz que não conhecemos alguém novo? É verdade, nosso universo se limitou, se cercou, se isolou muito. Algo atribuído aos mais velhos. Isso muitas vezes acontece com eles de fato, essa mesma dinâmica, claro que dependendo de escolhas pessoais também.

Mas não é típico da juventude não sair para conhecer. Não sair. E nem conhecer. Se limitar ao espaço doméstico como, infelizmente, muitos idosos fazem. Sabe? Aquela coisa de ouvir sempre a mesma música. Ver sempre o mesmo canal, não porque gosta, mas porque, bom, é o que está ao fácil alcance. O mesmo passou conosco, não por opção; fomos praticamente forçados ao sedentarismo, comodismo, moribundismo, exaustivismo ou como queira chamar. Uma mudança de disposição antinatural. Faz sentido nos perguntarmos se ainda somos jovens e quanto tempo mais nos será dado dessa fase visceral, explosiva, agitada depois dessa lacuna preenchida por outro tempo e comportamento nas nossas vidas.

E mais. Poucos de nós se sentem ainda dispostos a persistir em uma disciplina de exercícios solitários, cercados pelas paredes e muitas vezes dirigidos pelas telas. O que acontece é que muitos, então, abandonaram a atividade física. Soma-se a isso o fato de que toda essa energia não gasta em beijo, conversa ou futebol fica presa conosco e podemos descontar em outras coisas. Por exemplo a comida. Com ifood, tédio e ansiedade pra lá e pra cá, muitos fizeram da comida uma das escassas fontes de prazer voraz na pandemia. Extravasamos na comida, mesmo que às vezes sem querer, sem ter feito uma escolha clara, límpida e acatada. Por isso, ao longo de meses passando dias em poucos metros quadrados, também muitos de nós não têm mais o vigor físico que normalmente nos é conferido. Talvez não nos reconheçamos mais no espelho ou em uma atividade que exija algum condicionamento. Nos sentíamos tão vigorosos…

Estive pensando também sobre outra parte do vigor. Acredito que existe uma parte dele que tem inescapavelmente a ver com esse movimento de ver pessoas e ser vista por elas. E acho que esse vigor se relaciona com o vigor de viver também. Não que o primeiro seja o motivo de querermos viver. Mas quero dizer que talvez todos os “vigores” no fim sejam um só. Querer ser notado por mais gente não tem tanto a ver com o “grau de monogamia” de cada um. Acho que é algo mais geral. Ser percebido é se sentir na crista da onda, se sentir poderoso não só nos jogos românticos, mas sentir-se uma figura capaz em todos os âmbitos da vida; a quem não falta nada, alguém que já está lá fora e entrou no mundo pra valer, digno das relações e vínculos mais potentes, como, por exemplo, os amorosos. Eles podem levar a  alianças sérias, batalhas árduas lutadas a dois, casamento e até a geração de herdeiros – algo grande para qualquer pessoa e/ou ser biológico! 

É sentir-se viçoso também. Talvez potente seja melhor do que poderoso. Então gostamos de ser percebidos não por de fato nutrirmos algum desejo de ficar com aquela pessoa, mas por essa outra razão, do mundo acontecendo, de participar – aliás, de passar a participar, para nós que há nem tantos anos estávamos na puberdade. E aí existem duas possibilidades. Aos que não namoram, está reservada a tristeza de, bom, como me relatam amigos meus, não beijarem ninguém há mais de ano. Um ano inteiro dos anos de juventude é muito tempo. Ainda mais se a ele não pararam de se somar meses. Esses talvez ainda invistam no visual, pelo menos pras fotos no insta. Agora, quem namora, além de todos os outros estímulos, fica mais tentado ainda a não cultivar seu lado atraente. Lado esse que, como dito, comumente tem tanto a ver com muitas outras potências jovens.

A identidade da juventude está perdida, jogada em alguma rua, em alguma guia por onde passa um fio d’água. Se fechamos nossos olhos e chamamos por ela, ainda podemos vê-la. Racionalmente me forço a acreditar que é um exagero. Mas ainda me questiono quando não percebo: haverá tempo de encontrá-la em tempo?

Medo fácil

Estranho que comecei essa narrativa, mentalmente, em tempo real. Pressentimento de um episódio? Inusitado, meio fascinante até a coincidência e concomitância de ato e relato. Nesse caso, acho que relato e ato, na verdade, neste encadeamento. Em paralelo aos meus passos, corriam palavras metalinguísticas e até descritivo-literárias em relação às minhas ações. Não só ações, afinal, como quase toda história, comecei pelo cenário, o que justifica o relato preceder o ato ali em cima. Na minha cabeça, dava o ar de coisa contada fazendo dos verbos presentes, passados. E, agora, com autorização vinda da cena ter tido mesmo começo, meio e fim, desfarei a inversão.

Num caminhar despretensiosamente cadenciado, sinto nos calcanhares uma umidade que parece atravessar a sola dos chinelos. Isso em oposição e complemento às gotas que se lançam do asfalto quente direta e irregularmente em direção às panturrilhas. 

Estalos de cerca elétrica se confundem à possibilidade do pingar das gotas finais de alguma calha. Ou o contrário… Procuro sem sucesso, apenas registrando o pode ser. 

Late um cachorro, como todo bom cachorro de rua pequena late. E posso seguir fruindo minha experimentação literária, porque, todo bom cachorro que já me assustou, desta e de outras ruas, pregava pela proteção da sua casa e, logo, de dentro deste mesmo antro de nacionalismo canino, que, contraditória e reconfortantemente, barra grandes ações do guardião.

Pré-visualizo a minha passagem fluente e confluente com os agradáveis arredores. Muito bom, a rua, eu e o meu vestido, a grade e o cachorro latente, nesta ordem. Continuo com andar pensadamente despreocupado. Meus perigos imaginados estavam todos solucionados previamente ou ali mesmo. Antes de sair de casa, até deixei o celular, porque sabe como andam esses dias… 

Vejo incrédula caírem meus singelos planos de persistir leve. Sai debaixo da sombra de um carro, insatisfeita com a sombra da noite, um grande cachorro caramelo. O brilho dos seus olhos vira a luz amarelada dos postes em minha direção; e em alta velocidade. Não precisei nem passar por ele, se antecipou me interceptando antes mesmo da metade da rua. Vem vindo, vindo, vindo no ritmo em que aumentava a altura dos seus ladrares injustificáveis e absolutamente desproporcionais. 

A sua braveza se pode ver pelas pontas dos, não à toa batizados, caninos. A boca escorre baba, mas não é desleixo. É o limite invisível entre a ameaça e a iminência do ataque. Até que ele para exatamente na minha frente, mais ou menos a um metro de mim, não menos raivoso e determinado. Nós dois nos encaramos. 

Ele muito mais persuasivo que eu, que subi às nuvens da cabeça para explorar opções de ação. Olho-o com neblina nos olhos então, borrando um pouco a sua estridência, talvez instintivamente para poder racionalizar algo e sair viva. Abre-se um lapso que dura um parágrafo grande, mas uns segundos, uma fendinha, no tempo. 

Não há ninguém em volta. Só pessoas dentro de casas. Elas só ouviriam se ele já estivesse me estraçalhando ou se eu gritasse antes, mas aí sim a certeza é a de unhas e dentes. Rapidamente substituo essa análise estratégica. Tô sem celular não dá nem pra matutar alguma coisa pra fazer com ele, se bem que não sei nem se faria algum sentido a cena de eu digitando um número enquanto ele aguarda, senhor. Ok vamos ser práticos, avançar não é uma possibilidade e ficar parada aqui está insustentável. Recuar. Pode ser. Recuar.

Me viro de costas e avanço um passo de cada vez. Oscilando entre momentos em que ouço e não ouço quatro passos de confirmação do sucesso da repressão. Sim senhor, sim senhor. Não sei se meu pescoço está entalado olhando para frente ou se algum instinto me guia afirmando com veemência silenciosa que eu não olhe para trás. 

Não sei contar o fim da história. Acho que devo ter conseguido retornar à estaca zero, o começo da rua. Depois de ter-me visível nos trilhos novamente, comecei a pensar que essa história não tinha moral. O título ia até ser “História Sem Moral”. Mas aí senti um alívio, um respiro entrar por algum lugar raro, um segundo nariz, pulmão fantasma, atrás da cabeça. E, por mais que tenha gostado da ideia de não ter um fim de história, este, diferente do cachorro, por sorte, Deus ou instinto, me atacou. 

Como é ruim sentir medo. E como é bom quando o medo sentido é de uma não-pessoa.

Exercício de escrita – minha volta com a sorte

Estava meio abarrotada de uma velocidade interna injustificada, movimentos rápidos e cabeça ansiosa operando ad infinitum, ainda que vazia. Daí, entre uma tirar uma coisa da cadeira e pôr uma coisa na cadeira, vi uma coisa escura bater no meu abajur. E a tratei como mais uma tarefa da lista, um pouco mais irritada, porque essa tarefa envolve um terceiro, pelo menos do meu ponto de vista. Não é só como esticar a cama… E esse terceiro às vezes, apesar de empaticamente considerado, pode ser um pouco assustador aos olhos. 

Dali a pouco não deixei barato, fui procurar o inseto, que podia ser barata (seria mini), maria-fedida, besouro ou mariposa. E quando achei o danado, dono daquele pedaço escuro de asa que meio que encobriu a luz na fração de segundo que o avistei, não era danado, era danada. Uma joaninha — uma joaninha de fundo claro. Na verdade ainda pode ser um moço, né… Vou continuar fingindo cegueira a isso. Mas eu realmente não tinha considerado que podia ser uma joaninha!

Uma surpresa boa, um assaltinho do circuito neural que estava ativado em looping e auto-consciente, mas auto-incompetente. Aí ela voou pra um papel brilhante de ovo de páscoa que tá aqui em cima da minha mesa, e esse foi o palco da nossa luta cordial travada para que ela subisse no meu dedo. Lembrei nesse momento que não era simples fazer elas virem. Ainda assim, eu tinha o calor da mão a meu favor. Pensei que se estava atraída pela minha lâmpada… Devia ajudar. Na minha cabeça, eu ia pegar ela, levar até a janela do meu tio. 

Realmente, mas e daí?

Achei que com a mesma negação e pé atrás que me deparei no começo, ela ia sair voando assim que pudesse. Aliás, eu nem pensei nisso. Eu só pensei na cena até ali, tipo até o casamento da história da princesa, depois tem o que mesmo? Sei lá, muito automático, aquele fim de história que se completa sozinho se você não pensar nele. 

Enfim, lá ela ficou andando pela minha mão. Ela não ia embora. Pensei na simbologia, a sorte, e no meu namorado, questionando-me se como ele eu devia ter nojo daquele inseto perambulando com suas patinhas na minha mão. Em paralelo a essa reflexão, ela ia e vinha, sempre da direção dos meus dedos para o antebraço, como no jogo da formiguinha; e reiniciava, transitando para o indicador da outra mão sem obstáculos físicos ou de compostura.

Eu a trasladava de braço sempre que começava a me incomodar com as cócegas de quando ela andava por entre os pelinhos do braço, com certa dificuldade, mas parecendo gostar. Decidi tratá-la como sorte. E pensei que se ela veio até mim, eu não podia mesmo soprá-la pra noite fria. E também não podia mascarar uma certa vontade de me “livrar” da situação e do pensamento ainda com resquícios de ambiguidade. Quando olhava seu corpinho bolotudo pensava uma coisa, quando olhava suas patas finas, pensava outra, e quando sentia cócegas, outra ainda; quando via a parte que chamaria de sua cabeça, vi uma coisa que nunca tinha visto: umas três partes separadas se contraindo numa aproximação e depois afastando.

Levei ela para a varanda, achei que ali ela poderia voar de mim se quisesse, mas sem ser necessariamente lançada para o desamparo. Resolvi esperar uma ação dela. Eu também estava gostando da sua companhia, da sua interrupção forçada de um dia de celular e computador sem justificativa. Até que eu arrumei o meu quarto… Olhei pra fora e vi meu braço, a joaninha clara e o escuro da noite, umas plantas e algumas luzes amareladas. Senti também micro-gotas, que sem o poder da visão poderiam facilmente ser confundidas com o caminhar das patinhas. Sereno. Me senti parte da natureza, pela primeira vez nesse dia. 

Enquanto ela estava no gordinho superior do meu dedo indicador direito, pensei em quantas terminações nervosas temos. Em como eu estava sentindo um movimento tão sutil em uma parte do corpo que faz tantas coisas do dia-a-dia e em quantos estímulos possíveis ela era capaz de diferenciar. Lógico que ainda era mais fácil detectá-la quando estava por entre os pelos.

Uma hora eu cansei e pensei é isso, obrigada pela visita, já entendi e se quiser posso até escrever um texto sobre isso. Inspirou. Mas ela não foi embora aí. Dei uma bufadinha bem sutil, talvez tenha sido até só na minha cabeça. Pensei, ok, vou manter minha mente aberta então, às vezes tem mais coisa pra considerar.

Mas então, de novo eu não podia mascarar uma certa vontade de me “livrar” da situação; e nesse ponto eu nem sentia mais essa vontade igual da outra; estava mais confortável, mas era aquele tipo de fim que se sente depois de uma metragem específica, sabe? Quando alguém fala um “… então tá, é isso, beijos” que se não fosse ele, o outro ia falar.

E ela lá.  Mas sabia que se ainda que eu sentisse essa vontade, ia estar bem à minha manga a desculpa do quem ama deixa ir. Quando na verdade às vezes quem usa isso tá dando é um belo dum soprão na pobre da joaninha. Não não, eu estou aproveitando, ela está aproveitando e não vou dizer, “obrigada, senhora joaninha, entendi o recado, pode ir embora agora, viu, tchau, tchau”. Ela ia quando ela quisesse ir. Eu também não ia submetê-la a esse ritmo das atividades rotineiras, do ok, agora liga pro tal e avisa pro tal que tal; tá, marcada a reunião; ok, recebido aqui a mensagem da sorte; agora tocou ali o interfone. Não. Não porque também o melhor dela era justamente ter interrompido esse circuito. A deixei à vontade pra fazer o que bem entendesse. 

Depois de ficarmos mais tempo ali do que uma cena de filme mostraria sem corte, ela resolveu voar, depois que eu me movimentei de um jeito meio estranho de ajuste da postura que estava fazia tempo. Não foi de susto que ela voou, inclusive porque teve um espacinho de tempo entre uma coisa e outra. 

Ela só voou. E parou no vidro da porta da varanda, do lado de fora. Entrei, deixei a luz acesa lá pra se ela quisesse e vim escrever isso daqui. Pensei em vir escrever ainda com ela na minha mão, mas achei que estava romantizando demais também. Pensei em prender ela num copo pra eu poder ver minha musa inspiradora durante a redação. Mas por certo lado vamos voltar ao argumento do quem ama deixa livre né. Ainda assim seria mentira negar que pensei no que ela precisaria para ficar bem e comigo; lembrei que elas comem pulgões e de todas as vezes que eu tinha tentado prender algum inseto quando mais nova deixando uma folha pra eles comerem e os motivos de isso não ter dado certo, entre falta de buracos no recipiente, buracos grandes demais para ele sair, colocar água num pote, o que não sei se é errado, mas sinto ser e só assumir que eles comem folhas e mais: quaisquer folhas. 

Enfim, ela me fez escrever e não sei se outras coisas mais que eu ainda não vi ou que ainda estão intangíveis ou se só me fez escrever mesmo. De qualquer forma já valeu. Quando eu fui me despedir, vi a barriga dela do outro lado do vidro: as pernas vistas de baixo realmente lembram um pouco as de uma mini barata. Mas procurei não pensar nisso e o pouco que não consegui evitar me disse que os hábitos delas são diferentes e as joaninhas são bem mais limpinhas. 

De qualquer forma, ainda que fosse, seria minha baratinha da sorte.

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Pra dentro já!

manda a voz da espécie, normalmente inaudível pelo bate-bate dos motores

Veja bem, não estou dizendo que uma coisa aconteceu para que outra acontecesse. Mas que porque a coisa aconteceu, outra veio então.

Na narrativa do todo — se é que existe alguma, e eu acho que, pelo que vou dizer, cabe a licença poética, mesmo que não exista — estamos levando uma grande surra. Uma boa surra, de coletivo e de calma, às vezes via tédio forçado.

É só que queria não entrar no mérito da pobreza, ou tentar considerar que, talvez, o prato esteja conseguindo equilibrar-se ainda, com um pedaço da própria carne de um lado e um teco de pão do governo do outro.

Queria falar no âmbito e abrangência que alcança o termo espécie. Aí que queria estar. E, estando, vou dizer mais uma porçãozinha de coisas.

A gente começou a ir pra fora há muito tempo. Não sei se é sequer certo tentar apontar quando foi que isso começou. Talvez quando a gente começou a andar pra fora da África, mas meio desonesta essa hipótese. Talvez quando a gente começou a perceber que a gente tinha ou conseguia fazer coisas que os outros não tinham, e nos empenhamos em ir até eles — e vice-versa. Talvez desde o início das feiras. Talvez desde as Grandes Navegações.

O fato é que isso começou a lançar projéteis para todos os lados: com pessoas, com produtos, com bombas, eu sei lá, com dados sem matéria, tudo cruzando o céu. Teve gente indo pra lua, teve gente indo — e vindo — todo dia de Mairiporã pra trabalhar no centro. Ou pro Japão duas vezes por ano, porque… quis (e pôde).

Gente que não se suporta e vai pro bar beber. Gente que não se suporta e nem suporta muita gente e fica em casa com o computador, mas não com a família. Quantas vezes já se desencontraram habitantes da mesma casa. Ou, o maior choque, quão poucas foram as vezes que essas pessoas se encontraram em casa! Quantas vezes os filhos estavam de férias, mas os pais não, os pais nunca.

Quarentena não é férias, eu sei, mas quarentena é casa.

E é isso, uma marcha constante de pra forismos e individualismos histórica, que só andava em aceleração e não se via possibilidade que pudesse parar a máquina. Essa grande máquina, que incorpora seus inimigos e vende, em forma de t-shirt do Che Guevara. E até mesmo no começo disso tudo aqui, não seriam as vidas de “alguns velhinhos” já cheios de riscos — como se esses outros riscos sim, como pressão alta e bronquite, fossem culpa deles — que iam pará-la.

Louco que de repente abrir mão de parte da população de repente quase valeu o preço. E mais doido ainda que, dessa vez, uma coisa não valeu o preço de continuar acelerando, acelerando, acelerando. Nesse momento, a gente voltou à essência de espécie, tão não capitalista, quanto coletiva.

Nesse momento, a gente foi obrigado a escolher entre economia (ou trabalho, ou dinheiro, como preferir chamar) e vida, lembrando que, sim, desse jeito hoje uma depende da outra, mas, no limite uma importa mais. Uma importa mais, o que é óbvio, se eu te pedir pra responder assim, falando em voz alta, na minha cara. Mas não é óbvio nas noites de sono roubadas, tornando-se noites de trabalho. E não é óbvio, no stress que te faz ser um monstro com a sua família porque tudo que você tinha de ótimo a ok já foi drenado pelo trabalho. E não é óbvio quando você passa mais tempo indo pro trabalho do que sequer trabalhando, ou dormindo, ou passando tempo com a sua família. Também não é óbvio, quando tudo bem deixar sua irmã até mãe no vácuo por uns dias, enquanto não é nem um pouco ok deixar seu chefe no vácuo às seis da tarde em um domingo.

E, de novo, eu sei, quarentena não é férias, mas é casa, e é casa pra todo mundo (sim, todo mundo que tem teto, não vamos entrar nesse triste mérito).

O mundo inteiro freou, o mundo inteiro está em sua toca lembrando que, sim, coisas maiores que podem nos acometer, o sistema não anda sozinho e imparável. Ele tem uma grande força motriz, se só eu saio, tenho a sensação de que ele é um ser de vida própria e o melhor que posso fazer é cooperar. Mas se todos saímos vemos algo novo, um vácuo possível. E não, não estou sugerindo revolução comunista, estou olhando nos olhos do experimento, do repensar o que é isso de que participamos todos como se fosse tão exógeno e natural quanto a própria natureza.

E, olha, se um jantar em família não parecia ser o suficiente para frear a sua corridinha diária para alcançar suas metinhas do seu bloquinho de notas, e então, nada parecia suficiente para parar este leão voraz que você é, que não perde tempo e nem se distrai. Que não torce para que aconteça, mas faz acontecer. Eu espero que você tenha lembrado que muitas coisas anteriores tem que estar ajeitadas pra você poder fazer do seu dia uma porção de itens vitoriosamente ticados. Precisa ter comida na prateleira pra isso, precisa ter luz, precisa estar respirando, no geral, precisa de mais gente, seja pra trabalhar pra essas coisas, seja pra você querer impressionar, seja pra amar, ou pra cuidar das pessoas que você ama quando elas precisarem. E em algum ponto, estamos todos entrelaçados e interdependentes.

Então, minha filha, você vai ter que dar um passo atrás nesse seu “corajoso” e umbiguista movimento de entender o que você quer e não quer pra sua vida.  Você, meu bem, com todo o dinheiro que tem, não vai fazer ioga na Vila Madalena esse mês. E nem vai pra Portugal comprar uns azeites esse ano. Pois é, tem mais entre você e eu seu objetivo do que apenas a sua força de vontade e até a sua forma de pagamento.

E outra: você, dessa vez literalmente mais pra minha filha, não me importa a saúde jovem do seu sistema respiratório. Você vai pensar no seu avô, você vai pensar no seu irmão que tem asma, você vai ser obrigada a pensar. E sim, vai ser obrigada, a menos que tenha algo muito errado com você.

E você, meu tio, vai ser obrigado a ver, depois que alguma mãe de amiga sua morrer, que realmente é um pouco mais humano do que esse presidente que está aí. Que ele não te representa, ou pelo menos não em tudo.

E em, algum momento, meu amigo, em algum momento dessa longa e aparentemente eterna quarentena, essa maratona de pra dentrismo, você não vai estar consumido por causa do home office. No momento em que as contas saírem brevemente do seu pensamento, ou no momento que você acabar o livro que tava tentando há anos, em algum lampejo de tédio enfurnado na sua casa. Em algum momento vai sobrar um tempinho. Vai perceber o seu vizinho dando descarga. Você vai sentir a carga de preocupação no rosto do porteiro, igual da sua vó, ou chefe. Vai sentir o silêncio que está lá fora. Você vai ver que quase nenhum avião está cortando o céu. E isso é, historicamente, muito disruptivo.